
Manhã de sexta-feira, dia 16. Chego ao pátio do Cefas e encontro os jovens novamente reunidos em um círculo, com a mesma disposição e alegria que antecedem o encontro com as comunidades. Hoje conhecerei a Vila Alemoa. Apesar de morar em Santos há quase 10 anos, como a maioria da população santista, nunca fui até lá. Acompanho o pessoal da reportagem do Jornal da Orla, composta por dois jovens: o jornalista Willian e o fotógrafo Leandro.

A Vila Alemoa fica na entrada de Santos, na rodovia Anchieta, perto da famosa escultura do Peixe, um símbolo famoso na cidade. Nesta área industrial, o trânsito de caminhões, ônibus e veículos de todos os portes é intenso. Falta pavimentação e sinalização nas vias públicas. O comércio é intenso. Em cada porta, uma oportunidade para adquirir algum produto ou serviço. Há placas de “chup-chup” por todos os lados. E, segundo me contaram, 35 igrejas evangélicas.
Chegamos ao Centro Comunitário conduzidos pela Thaís, do Elos. Jogar “Os amigos de Jó” é a primeira tarefa do dia. William participa, entusiasmado (misturado aos jovens da mesma idade, ele se parece um deles). Cumprida a divertida tarefa, Thais vai introduzindo aos jovens a missão a ser realizada aquela manhã: conectar-se com a chama acesa de cada pessoa da comunidade e expandi-la.

- Imagem registrada por Leandro Amaral, do Jornal da Orla
Hoje é um dia também de levantar informações (sempre estabelecendo empatia) na comunidade, mapeando as tribos, ritos e territórios. “Vocês vão escolher tribos que vão trabalhar na comunidade. Por exemplo: jovens. Como eles se encontram? Quais os ritos que giram em torno do universo destes jovens? Que estratégias usam para se organizar? No que crêem? Onde vivem, trabalham, descansam, estudam, festejam? O que importa pra eles”?, explica ela, sempre carinhosa.
Todos os jovens saem, divididos em equipes, pela comunidade. Meu grupo inclui a Thais, o pessoal do jornal da Orla, o Caio (do Peru) e o Wesllen, de 13 anos. Este menino atento e carinhoso acompanha os guerreiros diariamente, desde o dia em que chegaram na comunidade. Ele e outras crianças da comunidade estão curiosas para saber o que estão aprontando estes jovens que vieram de países os mais distantes.
Wesllen nos conduz pelas ruas da Vila Alemoa com a liberdade típica dos adolescentes. Mas este menino tem algo diferente. Ele carrega consigo uma uma certeza do que quer.

- Caio, o guerreiro, e Wesllen, caminham juntos nesta foto de Leandro Amaral
No caminho, encontramos um simpático entregador de água que nos conta da destruição causada pelas chuvas e pelo vento do dia anterior. Chegamos até as palafitas. Várias mulheres e crianças trocam informações e sorrisos conosco. Fazem muitos desabafos também. Há anos esperam por moradia digna. Onde vivem, as palafitas formam um labirinto sobre o mangue – o espaço é pequeno para transitar, o que explica a dificuldade dos bombeiros adentrarem o local quando a população foi vítima de um pavoroso incêndio que destruiu mais de 100 barracos. O resultado foi o desalojamento de várias famílias. Agora, vivem sob a ameaça dos ventos e da chuva. Os moradores nos mostram um local onde 40 famílias não têm acesso à água encanada.

Mas as dificuldades cotidianas da Vila Alemoa não impedem a gente boa que vive ali de sonhar. São muitas as pessoas abertas ao novo, prontas para construir juntas.



Suas casas, aparentemente frágeis, foram erguidas com material nobre: aconchego.
Vamos conhecer alguns personagens marcantes, acompanhados de uma figura, no mínimo, célebre: nosso novo amigo, o Naldo.

- Naldo (de chapéu), sempre pronto a dar as mãos
Poeta, professor de arte, ele é um raio de luz a nos conduzir pelas inúmeras casas. Apesar de viver no Jardim São Manoel, bairro vizinho, conhece bem o local, onde fez muitas amizades artísticas. Sim, pois aquela comunidade abriga muitos talentos culturais: há gente de teatro, escritores, atores. E Naldo bate à porta destes artistas, orgulhoso e feliz por nos apresentá-los. Muitos deles não estão em casa, mas não desanimamos.
Pois nesse dia encontramos Dona Marluce, outra poeta. Em meio às histórias tristes que testemunhou, ela optou pelo caminho da arte.

“O que eu gosto mesmo é de fazer versos e trabalhos manuais”, conta. Chora de alegria diante da presença carinhosa dos jovens. Ao final da nossa visita, ela entrega ao Dimas as suas anotações poéticas. Pela primeira vez, confia a alguém os seus escritos. “Prefiro perder meus documentos a perder meus poemas”.
Neste dia presenciei poesia em forma de gesto. Vejo a guerreira Ana Lúcia correr para ajudar um senhor que caiu no chão ao descer do ônibus. Ela protege seu rosto marcado pelo sangue com um chapéu. Ficou ali, muitos minutos, cuidando para que o sol não o machucasse mais. Outra guerreira, a Mariana, logo convocou a ambulância. E logo aquele idoso estava cercado por solidariedade e carinho.

Voltamos ao Cecom, é hora de almoçar. Lazanha de berinjela, salada e arroz compõem o delicioso cardápio oferecido por uma moradora da comunidade. Depois de uma breve esticada no chão da sala, é hora de voltar ao trabalho.
À tarde a tarefa é convidar moradores da comunidade para uma conversa no Cecom, onde eles deverão relatar seus sonhos. Algum tempo depois e a sala está repleta de crianças da comunidade, acompanhada dos seus pais e amigos. Primeiro, todos dançam juntos. Depois, narram suas aspirações. Moradia digna, lazer para as crianças, limpeza do lixo e uma creche estão entre os muitos desejos destes moradores, a maioria apaixonada pelo local onde mora. Bastaria que se fizesse algumas transformações. Já há muitas belezas naquele lugar. Para que surjam outras, é preciso, sempre, lutar – sem armas, com alegria. Para que novas e belas paisagens ocupem os espaços.


Thaís os encoraja a seguir o caminho de outras comunidades que realizaram muitas conquistas por meio da união dos moradores. “Há muitas histórias, amor pelo bairro. Vocês têm todos os ingredientes para o sucesso da Alemoa”, diz ela – como sempre, sorrindo.
Os moradores se sentem felizes por estar em comum-unidade. Divertem-se e se empolgam com a alegria dos jovens. Muitos prometem estar presentes no encontro no Sesc, no dia seguinte, para discutir e compartilhar com a sociedade os seus sonhos.
Findo o encontro com os moradores, mãos na massa! Os guerreiros, acompanhados dos moradores – principalmente das crianças, vão limpar uma área tomada pelo lixo – um lugar que, a cada dia, fica mais bonito e alegre.

De volta à nossa base, é hora de agradecer. Todos os guerreiros se reúnem em um círculo (Wesllen, claro, permanece conosco, para nossa alegria, além de mais algumas crianças e de uma jovem da comunidade cujo nome não me lembro, mas cujo semblante permanecerá por um bom tempo na minha memória). É hora de dizer obrigado (a) a quem quer que seja, daquele grupo, por algo de bom que tenha feito por alguém. É difícil não conseguir chorar diante de tanto exemplo de carinho. Agradeço à Thaís por ser um exemplo de guerreira – forte e dona de um coração enorme. Mariana, a guerreira, uma amiga querida, me agradece por inspirá-la a continuar na faculdade de jornalismo. Trocamos vários abraços. A jovem moradora agradece a presença dos guerreiros, que iluminaram sua vida. Volto pra casa mais rica, graças a este encontro na Alemoa.
Obs: Leia a matéria do Jornal da Orla no link www.jornaldaorla.com.br, no item “Notícias”. O título é “Eles querem mudar o mundo”.